
A parte do corpo masculino que mais me agrada anda meio desprezada.
É um canto ao qual só quem ama tem acesso e apenas quem não tem medo de sua própria vulnerabilidade usa. Visível para qualquer um, mas que quase ninguém nota.
Sexo não é a entrega máxima entre duas pessoas - se fosse , prostituição seria amor.Intimidade não são dois corpos nus e cansados depois do sexo, não é compartir dívidas ou nomes na conta - corrente. Tampouco usar a mesma escova de dentes. Não é traçar planos a longo prazo porque eles, por experiência própria são levados embora como árvores num vendaval ( fortes na teoria, tão frágeis na prática) ; Não é saber de cor a respostas do outro, deixar de usar pimentão porque ele não gosta, jamais tocar aquela música que só faz lembrar alguém que já se foi. Isso se chama vida a dois, que pode (infelizmente) ser vivida por semidesconhecidos.
A maior intimidade que um casal pode conquistar não requer nudez, gemidos ou penumbra. Ela fica disponível, esperando ser requisitada, exatamente no lugar que mais me atrai na solidez corpórea de um homem.
Não me apaixonei muito na vida apesar de as possibilidades de paixão terem sido fartas. Mas foi só depois de terminados o ardor e o desespero que vêm atrelados a esse sentimento difícil que compreendu o porquê de ter me perdido em outra pessoa em tão poucas ocasiões: só eles, esses poucos amores, me deram o que sempre precisei, perceberam que minha maior necessidade não tem vínculo algum com brilhantes interpretações ou demonstrações de saber. Só eles notaram ser essencial deixar essa pequena área sempre a disposição - quando os momentos difícies me alcançavam ( ou os muitos bons), era sempre no resguardo desse canto que eu repousava minha aparente força, chorava de alegria, abandonava os medos.
A maior entrega se faz quando me aninho mansamente no espaço macio entre o pescoço e o peito dele e apenas fico, sem necessidade de palavras. Intimidade é o momento no qual silencio a mente ( e o mundo) e repouso a cabeça na parte mais fascinante e suave do corpo masculino: o ombro do homem que amo.
